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As lendas e mitos do Rio Paraíba

Matéria publicada em 24 de julho de 2015, 07:00 horas

 


Relatos sobre criaturas estranhas eram comuns; minha avó morou na margem do rio durante boa parte de sua vida e falava no ‘ururau’

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Filme: Lenda inspirou filme americano com Julia Adams  (Foto:Divulgação )

Filme: Lenda inspirou filme americano com Julia Adams
(Foto:Divulgação )

O Rio Paraíba do Sul, que corta nossa região, tem seus mitos e suas lendas. Como qualquer rio importante desse planeta. Até hoje, em pleno século XXI, as pessoas humildes, que vivem nas margens do rio, repetem relatos sobre monstros e seres fantásticos que viveriam escondidos naquelas águas barrentas e escuras. Cresci ouvindo essas histórias e achava que ninguém se lembrava mais delas até ouvir uma dessas lendas sendo repetida por um pescador lá da minha cidade, no último fim de semana.

‘Ururau’

Minha avó morou na margem do rio durante boa parte de sua vida. E falava no “ururau”. Um jacaré enorme que morava em um trecho profundo do rio, na extremidade de uma das ilhas que ficam em frente a cidade de Pinheiral. E se alimentava de galinhas, que eram comuns nos quintais das casas da margem do rio. Eu tinha uns sete, oito anos de idade, e passava as férias de verão e inverno em Pinheiral. E sempre ouvia a história das galinhas que se aproximavam muito da margem e desapareciam. Deixando só um monte de penas na superfície. Isso não intimidava muito a garotada.
Continuávamos brincando no pomar que ficava na margem do rio e nunca surpreendemos o enorme jacaré, o lendário “ururau” tomando sol na margem. Ele devia ter algum problema de pele. É claro que algumas lendas tem um fundo de verdade.

‘Caboclo d’água’

A fauna do Rio Paraíba inclui alguns pequenos jacarés de papo amarelo. Mas nada das dimensões do verdadeiro crocodilo que comia as galinhas da minha avó. Mais fantástico era o “caboclo d’água” uma espécie de humanoide aquático que atacava pescadores incautos. Tinha um sujeito em Pinheiral que afirmava ter cortado a mão da criatura e guardado como troféu. Não sei que fim levou, mas foi essa história que ouvi sendo repetida no último fim de semana.
O caboclo d’água não é exclusivo do Rio Paraíba. Ele faz parte do folclore de outras regiões. O fato é que essa lenda é tão popular que foi parar em Hollywood, aí no início da década de 1950. E deu origem a um clássico da cultura pop, o filme “O Monstro da Lagoa Negra” do diretor Jack Arnold. Que passou muitas vezes no cinema de Pinheiral.
O filme é de 1954 e foi um dos primeiros rodados no processo original de 3D. Mas não passou em terceira dimensão em Pinheiral, o cine Odeon não tinha equipamento para isso. O fato é que eu e os outros garotos vimos o filme e saímos do cinema com a certeza de que os americanos tinham “roubado” o nosso caboclo d’água. O roteiro de Harry Essex começa com um grupo de pesquisadores americanos chegando ao Rio Amazonas. Entre eles está a bela bióloga Kay Laurence (Julia Adams). Eles viajam de barco até uma lagoa profunda, de águas cristalinas, onde a mocinha cisma de nadar usando um maiô branco bem ousado para aquela época.
O monstro, que vive no fundo da lagoa, fica apaixonado pela moça. E tenta sequestra-la para desespero do seu noivo, o líder da expedição. A criatura é um humanoide cheio de escamas, com guelras, muito semelhante à criatura que vivia no Rio Paraíba da nossa infância. Mas a Julia Adams nunca ia nadar nas águas barrentas do Paraíba, daí que eles transferiram a história para a Amazônia. Uma pena, Pinheiral podia ter ficado famosa mundialmente.

Atualmente, as capivaras
proliferam no rio

Hoje em dia essas lendas só são lembradas por pessoas com mais de 50 anos. O Rio Paraíba não é mais aquele rio profundo e caudaloso que a minha geração conheceu. E não dá mais para sonhar com criaturas estranhas vivendo naquelas águas sujas e cheias de esgoto doméstico. Ótimo para as capivaras, que proliferam e estão virando uma verdadeira praga.
O que me leva a lamentar que não exista mesmo aquele imenso jacaré das estórias da minha avó.
Quanto ao caboclo d’água, esse deve ter se mudado para águas mais limpas.

Jorge Luiz Calife | jorge.calife@diariodovale.com.br

 


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9 comentários

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    eleitor consciente

    As capivaras viraram praga?!!! Não acho não… aprecio bastante a sua presença na paisagem de minha cidade: Barra Mansa! Frequentemente são flagradas pastando num gramado na margem esquerda do Rio Paraíba próximo a Ponte Nilo Peçanha com um comportamento que nos passa uma atmosfera de paz e tranquilidade em constraste com a agitação e o stress do nosso trãnsito de automóveis. Que a nossa fauna seja abençoada, amém!

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    A História de que um homem cortou a mão do caboclo d’água é verdadeira, porém, um pouco diferente, na verdade ele cortou foi um dedo do bicho, depois disso o caboclo d’água deixou a barba crescer entrou para o sindicato e mais tarde virou presidente da republica, hoje ele continua a perturbar as pessoas de bem, porém, mudou de estratégia, ao invés de assustar ele rouba as pessoas… coisa feia né…

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    Triste mesmo é saber que essas lendas e mitos estão ficando esquecidas…

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    Atualmente o Caboclo d’água que temos em Pinheiral se chama Jaime Romero, um senhor com barbas grisalhas que habita as margens do Rio Paraíba do Sul próximo do Capitólio, jura que um dia salvará o rio, seus habitantes e a mata ciliar. Parabéns Caboclo d’água nós acreditamos e admiramos você!

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    Emmanuel Alves Md.

    A história é a verdade que o homem deforma a sua simples vontade, já a lenda é a falsidade que se encarna e encanta. A frase não é minha é de Mario de Andrade.

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    Alexssandro Duarte

    Até mesmo as lendas morrem um dia e são esquecidas. Fico pensando se algum escritor ou roteirista talentoso poderia responder para onde vão essas lendas quanto são esquecidas. Seria um material interessante para se ler ou assistir.

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    Pois é! Agora é Esgoto Paraíba do Sul devido o desprezo de nossa sociedade com a consciência ambiental.

    Imagino que o Rio seja “deste” planeta Terra em que estamos dentro e bem pertinho de nós.

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    Eu fui criado por um casal de caboclos d’água que vivia num remanso do rio Brandão, dentro da mata da Cicuta. Com alguma sorte, lá também podem ser avistadas figuras como o saci-pererê (que vive da caça de preás e cutias) e o lendário mapinguari…

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