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Entre a casa e o lar

Matéria publicada em 21 de fevereiro de 2020, 07:00 horas

 


A sabedoria popular diz que quem casa quer casa. Na verdade, esse não é um desejo somente de quem casa, mas de todas as pessoas casadas ou solteiras, aqui ou em qualquer lugar do mundo.
As guerras mostram claramente isso. O uso de táticas que mais prejudicam do que ajudam os que não têm um lar é a grande questão. As guerras desalojam as pessoas e não criam o que buscam através das batalhas, ou seja, um espaço feliz, uma casa de verdade para manter as pessoas unidas.
O atual embate entre os Estados Unidos e o Irã é a prova cabal da busca por um espaço que seja bom para todos, mas que não chega a lugar algum, simplesmente porque o método usado não é capaz de promover a união.
“Casa” quer dizer proximidade, acolhimento, presença e participação. É para esse local que sempre voltamos ao final de uma jornada. É o nosso espaço, na maioria das vezes, seguro, aconchegante, onde se busca traduzir em felicidade nosso esforço, mesmo que nem sempre seja assim por inúmeros motivos. Nesse sentido, a casa é entendida como a estrutura que, para além de se constituir um abrigo, define-se como uma construção cultural de uma sociedade.
“Casa” nos leva imediatamente ao termo “lar”, uma conotação bem mais afetiva e pessoal, um local visto como próprio de um indivíduo, onde este tem a sua privacidade e onde parte significativa de sua vida se desenrola. O lar sempre foi considerado referência que nos leva à ideia de família. Uma visão tradicional a respeito da estrutura de uma sociedade considera a família como sua unidade fundamental, ou seja, o encontro, o porto seguro.
Inspirado numa reflexão da pensadora Alba Magalhães, traça-se de forma livre as principais diferenças entre lar e casa: “Casa é uma construção de cimento e tijolos. Já um lar é uma construção de valores e princípios. Casa é o nosso abrigo do calor e do frio. Lar é o abrigo do medo, da dor e da solidão. Casa é o lugar onde as pessoas entram para tomar banho, comer e dormir; já o lar é o lugar onde membros da família anseiam por estar nele para refazer as energias, alimentar-se de afeto e encontrar o conforto do acolhimento. É para onde temos pressa de chegar e tentamos ao máximo retardar a hora da saída”.
Vale lembrar que, não muito distante no tempo, as pessoas chegavam ao mundo em suas casas, pelas mãos de parteiras. Era na sala da casa que o futuro pai e seus familiares aguardavam o choro do bebê que acabara de chegar. Da mesma forma, que hoje as pessoas quase já não morrem em casa: quando estão próximas de partir, são levadas aos hospitais, na tentativa de se prolongar a vida. Os velórios já não são realizados nas salas das casas; isso acontece exclusivamente em capelas construídas nos cemitérios para esse objetivo.
As casas se tornaram menos acolhedoras, porém, as pessoas necessitam cada vez mais de acolhimento. Em um mundo que se torna violento a cada geração, a casa deveria servir de abrigo, em todos os sentidos, porque esse espaço mágico sempre nos remeterá à ideia de casulo ou, mais ainda, de útero, por ser acolhedor e protetor.
Do ponto de vista simbólico, a casa representa a nossa psique, ou seja, as várias instâncias da nossa mente, nos planos consciente ou inconsciente. Nesse amplo sentido, a casa, assim como a nossa mente, expressa os conteúdos cognitivo e emocional que nos constituem como indivíduos distintos do grupo. Psicologicamente falando, isso faz da casa um repositório das nossas vivências físicas, afetivas e intelectuais.
É fato que a nossa memória – a nossa história de vida – encontra, no espaço doméstico do dia a dia um lugar favorável de expressão. Em função disso, a forma como organizamos esse espaço que chamamos de casa pode dizer muito sobre nós, ou seja, como nos sentimos, como está o nosso pensamento e qual o nosso papel no mundo.
A casa é um espelho que nos reflete ou vice-versa. Ela tem muito de nós, e tudo que com o tempo vimos somando do mundo e colocando dentro dela, representa a nossa vida. Ao mesmo tempo, a casa nos oferece inúmeras pistas dos valores e crenças que nos caracterizam, sempre em um nível mais profundo, latente, trazendo a emoção ao ápice. É inegável que ali está a marca do nosso comportamento, traços marcantes da nossa personalidade – o nosso DNA – que se revelam nos objetos e nos cheiros que inundam os ambientes.
O convívio social em espaços coletivos exige às vezes a supressão quase por completo do que somos de verdade, de como pensamos e de como nos sentimos. Isso exige de nós um esforço maior; somem-se a isso pensamentos, emoções e comportamentos que muitas vezes somos obrigados a expressar. Já no nosso lar/casa – fica aqui a nossa forma de classificar esse espaço – sabemos que somos originais, que não existem comportamentos preconcebidos – porque somos o que somos, com nossos erros e acertos.
Para nos integrarmos, precisamos enfatizar as nossas características e comportamentos que são demandados naquele espaço e tempo. Essa constante exigência adaptativa gera estresse emocional e cognitivo, pois muitas vezes somos obrigados a reprimir sentimentos, pensamentos e emoções que desejaríamos expressar. Ali somos nós mesmos, sem máscaras ou subterfúgios. Pena que muitas pessoas pensem que a casa é uma vitrine de moda e que mereça figurar nas páginas das revistas e em tantas outras mídias. Com isso, é comum que se esqueçam de priorizar o gosto pessoal e o conforto do espírito, principalmente. E o refúgio/casa acaba se tornando uma confortável prisão!

Dia a dia: Casa nos oferece inúmeras pistas dos valores e crenças que nos caracterizam


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