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O Brasil, a festa olímpica e a decadência

Matéria publicada em 12 de agosto de 2016, 07:30 horas

 


Cerimônia de abertura mostrou como andamos para trás em quase tudo; estrangeiros ficaram boquiabertos e os brasileiros deslumbrados

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A festa da abertura das Olimpíadas, sexta-feira passada, deixou os estrangeiros boquiabertos e os brasileiros deslumbrados. A grande novidade foi a mensagem sobre o aquecimento global. A gente ouve falar disso o tempo todo, mas mostrar os efeitos do mar avançando sobre a costa de Dubai, Amsterdã e Rio foi um ato de coragem. Coisa que não se vê em eventos esportivos.

O resto do espetáculo foi correto, mas sem grandes novidades. Pelo menos para quem está acostumado a assistir aos Jogos Olímpicos.

Desde que começaram as transmissões via satélite, no início da década de 1970, que este cronista acompanha os jogos. Costumo assistir tanto as Olimpíadas de verão quanto as de inverno. A abertura brasileira me lembrou muito a da Olimpíada de inverno do Canadá, em 2010, realizada na cidade de Vancouver. Os canadenses também usaram a mesma técnica de projetar imagens sobre o piso da arena, e também contaram a história do seu país, dos primórdios aos dias de hoje. Começando na era do gelo, com os antepassados dos índios cruzando a ponte sobre o estreito de Bhering. E prosseguindo com a chegada dos colonos franceses e ingleses ao Canadá.

Na versão brasileira vimos a vida emergir do mar, o surgimento da floresta amazônica e seus primeiros habitantes, os índios. Depois vieram os colonizadores portugueses destruindo tudo. Transformando o verde em um quadriculado de campos cultivados e de cidades de concreto. Nosso momento de glória foi representado pelo voo do 14 Bis do Santos Dumont.  É melancólico que no início do século passado um brasileiro tenha construído um avião pioneiro, assombrando os moradores de Paris, e hoje, mais de cem anos depois, os brasileiros não consigam nem fabricar um modesto foguete lançador de satélites. O equivalente moderno do 14 Bis do Santos Dumont. Coisa que indianos e iranianos já fizeram há muito tempo.

Música

Mas também andamos para trás nas artes e na música popular. Outro ponto alto da festa de sexta-feira foi quando Daniel Jobin, neto do maestro Tom Jobin, tocou a célebre “Garota de Ipanema”, enquanto a modelo Gisele Bündchen desfilava representando a musa original de Jobin, Helô Pinheiro. A bossa nova de Jobin foi o ponto alto da nossa música popular, nosso 14 Bis musical. Podiam ter parado por aí, mas é claro que tinham que mostrar o que veio depois.

E o que veio depois foi a Anita e o funk das favelas. Francamente, passar da Bossa Nova para o funk foi a mesma coisa que se tivessem mostrado o foguete brasileiro explodindo depois do voo triunfal do 14 Bis.

Mas ficou a esperança de um futuro melhor, que substitua esta realidade desanimadora. A esperança representada pelas sementes que os atletas colocaram em recipientes. Para serem plantadas em um futuro bosque em Deodoro. A pira olímpica também estava bonita, em frente a uma escultura cinética do artista americano Anthony Howe. Ela se move com o vento e representa o sol. Depois de ensaios desastrosos tudo funcionou como era esperado e os problemas foram mínimos. O diretor do espetáculo, Fernando Meirelles, revelou que Gisele Bündchen devia ter parado ao lado do pianista, mas ela demorou tanto para fazer o percurso que a música acabou.

O discurso do presidente interino, Michel Temer, foi mais curto do que se previa. Por conta de uma vaia também previsível. Com a Dilma teria sido muito pior. O importante é que não demos vexame e todo mundo ficou satisfeito com a festa. Que custou muito menos que as aberturas de Londres e de Sydney. A dos jogos de Londres custou o equivalente a 340 milhões de reais, a do Rio teria ficado em 270 milhões. O que mostra que nossa criatividade, felizmente, não se esgotou toda no 14 Bis.

Abertura Olimpíadas: Grande novidade foi a mensagem sobre o aquecimento global (Foto: Ricardo Stuckert/CBF)

Abertura Olimpíadas: Grande novidade foi a mensagem sobre o aquecimento global (Foto: Ricardo Stuckert/CBF)

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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5 comentários

  1. Avatar

    Gostei de suas reflexões… Todavia, não podemos esquecer que a sociedade é dinâmica, dificilmente poderá ser analisada pelo mesmo prisma de anos atrás. Particularmente também não gosto de funk, mas certamente ele representa um sem número de pessoas hoje… Bom, um viva à vida! O Brasil é de todos, uma verdadeira Babel!

  2. Avatar

    É verdade. O país involuiu. Mas isso não é culpa do PT ou da esquerda ou direita. Somos o eterno país do futuro. O que temos hj é aumento da violência, da violência no trânsito, analfetismo funcional, música lixo, tecnologia lixo. Até o futebol puorou. Seremos sempre a esperança que nunca chega.

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    Faltaram apenas dizer que as Olimpíadas são por pouco tempo e ninguém menciona que milhares de empregos gerados com o evento foram ou estão sendo concluídos e que as forças de segurança estão indo embora e o dinheiro recebido para “estancar” as ameaças de greve e as greve que estavam em curso voltarão com força total.

  4. Avatar

    O velho tema “no meu tempo, isso, no meu tempo, aquilo”: geração fracassada. O marasmo de Piraí está fazendo mal pro Donald Trump do brejo. Esse cara poderia tentar curar sua amargura vazando pra Miami ou procurando um psicólogo…

  5. Avatar

    O site americano Pop Sugar rasgou elogios e chamou Karol Conka de “resposta brasileira à Beyoncé”.
    O talentoso Jobin se vivo fosse provavelmente estaria fazendo duetos com artistas do funk , assim como ROBERTO CARLOS recentemente fez de forma maravilhosa.
    Quanto ao Temer como você pode saber que com a Dilma seria pior , apenas acho que a globo para manipular daria mais destaque neste fato.
    Chega de Complexo de vira-lata viva ao funk e a Santos Dumont

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