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Paulo Freire, o educador ‘energúmeno’

Matéria publicada em 17 de janeiro de 2020, 10:09 horas

 


Paulo Reglus Neves Freire, falecido há 23 anos, foi, indiscutivelmente, um dos maiores educadores brasileiros, além de filósofo de mão cheia. Considerado um dos pensadores mais notáveis da história da Pedagogia mundial, influenciou o movimento chamado “pedagogia crítica” e orgulhosamente é o patrono da Educação brasileira.
No último mês, Paulo Freire tornou-se ainda mais conhecido, depois que o presidente Jair Bolsonaro direcionou sua metralhadora giratória para o educador, já tendo feito isso antes com outros, como o cacique Raoni, a ativista sueca Greta Thunberg, o juiz Flávio Itabaiana, além de um time de políticos brasileiros e estrangeiros, incluindo o presidente francês Emmanoel Macron, a chanceler alemã Angela Merkel, o presidente da Câmara Rodrigo Maia, o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, entre inúmeros outros.
Paulo Freire foi, literalmente, escrachado pelo presidente, sem direito à defesa, mas não faltaram alunos e educadores contra-atacando, buscando defender a todo custo a memória do renomado educador.
Paulo Freire nasceu em setembro de 1921, na cidade de Recife, Pernambuco. Ele foi o criador do método inovador para alfabetização de adultos, tendo esse método sido utilizado em diversos países, sempre com enorme sucesso.
Em 1968, Paulo Freire lançou o livro “Pedagogia do Oprimido”, uma das mais importantes obras de Educação do mundo. Este livro foi escrito a partir da experiência do educador nos anos passados no Chile. Outra obra de enorme destaque na carreira de Paulo Freire foi “Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa”, livro que resume as questões que o motivaram ao longo da vida e que discute os aspectos-chave da Educação, como o fato de que ensinar não é apenas transferir conhecimento.
Preocupado com o grande número de adultos analfabetos na área rural, sobretudo nos estados nordestinos, os quais acabavam por formar um significativo número de excluídos, Paulo Freire desenvolveu um método próprio de alfabetização. A proposta de ensino se baseava no vocabulário do cotidiano e da realidade dos alunos; as palavras eram discutidas e colocadas no contexto social do indivíduo. Por exemplo, se o aluno fosse um agricultor, ele aprendia as palavras ligadas ao seu ofício, como – “enxada”, “terra”, “pasto”, “colheita”. Assim, a partir das palavras-base, iam-se descobrindo novos termos e fazendo com que o vocabulário fosse ampliado.
O primeiro projeto usando o método de alfabetização criado por Paulo Freire aconteceu em 1962, na cidade de Angicos, no sertão do Rio Grande do Norte, mesma cidade onde morreram Lampião e os cangaceiros do seu bando. Nessa cidade, Paulo Freire alfabetizou, em apenas 40 horas, cerca de 300 trabalhadores da agricultura. O projeto ficou conhecido como “Quarenta Horas de Angicos”, enquanto os fazendeiros da região chamavam o método de “praga comunista”.
Dois anos depois, com o golpe militar de 1964, Paulo Freire foi acusado de agitador, e foi levado imediatamente para a prisão, onde ficou por 70 dias. Quando libertado, exilou-se no Chile. Assim, durante cinco anos, desenvolveu trabalhos em programas de Educação de adultos no Instituto Chileno para a Reforma Agrária. Em 1969, Paulo Freire lecionou na Universidade de Harvard, e durante dez anos foi consultor especial do Departamento de Educação do Conselho Municipal das Igrejas, em Genebra, na Suíça. A partir daí, Paulo Freire viajou por vários países dando consultoria educacional.
Mesmo com uma história irretocável e com 10 livros publicados de enorme relevância para a Educação mundial, Paulo Freire não foi poupado pelo presidente Jair Bolsonaro, que disse em uma entrevista que usaria um lança-chamas para expulsar do MEC as ideias do educador.
O presidente defendeu em seu plano de governo expurgar a filosofia freiriana das escolas, tal qual o pensamento dos seus adeptos e do seu mentor intelectual, hoje um pouco desaparecido, o ideólogo de direita Olavo de Carvalho. Acusado de proselitismo político em favor do comunismo, muitos responsabilizam o educador pela deterioração da qualidade do ensino, argumentando que, quanto mais é estudado e lido nas universidades, mais a Educação anda para trás, uma vez que consideram os escritos de Freire totalmente ultrapassados e afirmam que o lugar de fazer política não é nas escolas.
O presidente – no seu falar muitas vezes sem pensar – classificou Paulo Freire como “mentecapto”, “alienado”, “idiota”, “louco” e “insensato”, além de outros adjetivos pejorativos como “imbecil” e “idiota”.
Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. Sendo assim, é compreensível que nem todos deleguem a Paulo Freire as qualidades que o mundo reconhece – mas negar que o educador tenha dado contribuições relevantes à teoria construtiva na ciência da Pedagogia é total falta de senso. Confundir o aspecto técnico de sua obra com suas posições ideológicas é incorrer no mesmo erro que a esquerda comete frequentemente, ou seja, teima em colocar a ideologia acima da técnica.


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2 comentários

  1. Avatar

    Realmente, Paulo Freire foi grande educador, inclusive, com seus métodos o Brasil lidera o ranking de educação mundial. Se virar a tabela de cabeça pra baixo…

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